11
May 12

Crônica 117 – Papel higiênico literário

Papel higiênico literário 

Um rolo de papel higiênico é um objeto muito cobiçado em determinadas ocasiões e que passa diariamente pelas mãos de milhões de pessoas no mundo civilizado. Por outro lado, a ida ao banheiro é o momento em que normalmente muitas pessoas aproveitam para ler alguma coisa. Talvez, baseados nestes fatos, alguns criativos empresários ao redor do mundo resolveram lançar no mercado um papel higiênico especial, com poesias, pequenas histórias e até alguns trechos clássicos para ler neste momento de privacidade. Aqui no Brasil, uma empresa do interior de São Paulo compra o papel comum e imprime textos diversos espaçados como piadas, frases sobre vários motivos, inclusive personalizadas a gosto do freguês. A seguir, enrolam o papel em uma máquina que desenvolveram e entregam na casa do consumidor. Os produtores deste papel higiênico especial garantem vender cerca de 200 unidades por dia, a um preço médio de R$ 9,00 a unidade, somente pela internet. Não vendem mais por não terem ainda uma empresa com capacidade de produção suficiente para colocar o produto em grandes lojas. Na Espanha, existe uma empresa que vende também pela internet rolos de papel com trechos de clássico de domínio público e sem direitos autorais. Entre as opções existem até trechos da bíblia e de filosofia budista e os leitores podem também escolher a cor do papel. No Japão, o escritor Koji Suzuki, famoso pela obra de terror Ring, transformada em filme (O Chamado), criou uma pequena história de terror chamada Drop (Gota) que se passa dentro de um banheiro público onde mora um espírito maligno e que pode ser lida em apenas 90 cm de papel. As crianças japonesas têm medo de banheiros, pois é normal ouvirem lendas como a da mão peluda, que sai da privada e leva as crianças para o fundo das águas sujas. A história foi impressa em rolos de papel higiênico fabricados pela empresa Hayashi Paper e já vendeu perto de 100 mil exemplares, sendo o rolo de papel literário já considerado um best-seller no Japão. Alguns acham que isto pode ser um incentivo à leitura, mas fico imaginando o que diriam escritores como José Saramago, Ernest Hemingway, Machado de Assis e tantos outros sobre este destino insólito de suas obras.

 

 


11
May 12

Crônica 116 – ESPECIAL – O dia seguinte ( Prece para uma mãe )

O dia seguinte

( Prece para uma mãe )  

Ela era uma das últimas árvores. Estava seca, sofrida e seus galhos, sem folhas, estavam quebradiços a qualquer movimento. Fazia tempo que não chovia naquele mundo e toda a exuberância verde do passado só existia na sua memória. Suas raízes buscavam nas profundezas, qualquer resto de umidade, mas até os poços artesianos tinham se esgotado naqueles tempos áridos. Ela sabia que era uma das últimas a permanecer em pé naquele mundo sem vida. Por séculos ela desfrutara da amizade de todas as outras árvores, das gotas de orvalho, dos pequenos animais do bosque e dos duendes. Ah, os duendes! Ela se lembrava das grandes algazarras que aqueles seres brincalhões promoviam debaixo de sua sombra protetora. Eles eram alegres, incapazes de fazer mal a qualquer forma de vida, porém eles também haviam desaparecido e, agora, era só silêncio. Não existia um só local para resistir ao grande calor e todos tinham sucumbido, uns após outros. Só restaram algumas poucas árvores, insistentes como ela, e um homem estranho. Ele vinha todos os dias e falava coisas absurdas: dizia para resistir, que as coisas voltariam a ser como foram um dia e que ainda haveria de cair água dos céus. Não entendia como ele ainda vivia, sem se alimentar, sem água, sem amigos, sem nada, mas lá estava ele, com seu corpo esquelético, recoberto de pele ressecada, para visitá-la todos os dias. A paisagem, outrora cheia de cores, agora tinha somente um tom amarelo dourado. Durante todos os dias sempre a mesma cor e as noites, cheias de estrelas, não mais existiam. A lua, no passado, tão fria, alva e romântica, transformou-se em um segundo sol, fazendo com que a escuridão desaparecesse por completo. Ela se lembrava do dia em que as explosões começaram; em seguida veio o calor, a cor amarela, o novo sol que trouxe o dia permanente para o mundo inteiro. A vida foi se acabando rapidamente e, em alguns poucos meses, tudo foi reduzido a cinzas cor de ferrugem. Ela sabia sobre a existência de grandes ruínas que, por muito tempo, exalaram odores fétidos como nem as piores cisternas produziam, mas, agora, até a fetidez das grandes cidades já havia desaparecido. Era um mundo sem odores, era um mundo moribundo. Mas lá estava ela e o estranho! Por ironia do destino, quiseram os deuses que aquele mundo cheio de vida e belezas, terminasse reduzido a uma grande árvore seca e um estranho homem que falava com ela todos os dias. Ela se lembrou do tempo em que os duendes se reuniam aos seus pés e de quando um deles arrancou um grande cogumelo vermelho de suas raízes e, mostrando para os demais, falou com voz solene:

­Eu tive um pesadelo! Nele, eu vi cogumelos gigantes e vermelhos como este inundarem os céus. E todo nosso mundo foi ferido mortalmente.

Todos ficaram em silêncio, pois os duendes davam muito valor aos sonhos. Recordou também que, deste dia em diante, eles olhavam para os grandes cogumelos vermelhos com receio, como quem está vendo uma maldição. Eles não sabiam os motivos, mas passaram a temê-los. Agora, todos mortos, não saberiam nunca mais do quanto estavam certos. Mas a árvore e o estranho, estes sim, sabiam da verdade.

Naquele dia o homem chegou mais cansado e quase não falou. Sentou-se ao pé da árvore, encostou suas mãos ressequidas no caule queimado e começou a sussurrar uma prece engasgada em sua garganta:

─ Grande Mãe! Por que permitiste a geração de monstros em teu seio? Por que deixaste o mal avançar tanto nos teus domínios? Poderia tê-los detido e não o fizeste. Poderias ter evitado a morte de seus outros filhos como os duendes, as árvores e os animais. Mãe! Por que poupaste a mim e a esta minha amiga sofrida? Escuta minha prece! Conceda-nos a morte para não assistirmos a mais um dia deste teu desalento. Mãe que sempre fizeste tudo por teus filhos, sem distinção, sem se importar se viviam nas águas dos agora secos mares ou se nas antigas e férteis terras, se tinham duas, quatro ou oito pernas e se andavam eretos, deitados ou voavam por entre as nuvens de teu outrora belo céu. Tenha piedade destes pobres que sobreviveram à desgraça que um dos teus filhos criou e livra-nos de mais um dia de vida neste inferno. Mãe! Escuta a súplica deste teu filho.

A árvore ouviu a prece e sentiu que o estranho era bom. Ela conhecera, durante sua vida, muitos homens bons. Ela tentou consolá-lo nesse momento dramático e um pedaço de galho seco caiu bem ao lado do estranho. Ele abraçou a árvore, fechou os olhos e desejou, do fundo do seu coração, que a morte os levasse, para bem longe deste inferno. Assim ficaram, em silêncio, por várias horas, até que os primeiros pingos grossos de chuva quente começaram a cair na terra ressequida. O estranho abriu os olhos e olhou para o céu! Lá em cima, o antigo e verdadeiro sol estava se pondo e a imagem de uma lua esbranquiçada e fria começou a aparecer timidamente no firmamento. Neste instante, outro pedaço de galho seco caiu ao seu lado. O estranho apertou com mais força a sua amiga e entendeu que a Mãe escutara sua prece.

 


21
Apr 12

Crônica 115 – Automóveis e bicicletas – parte 2

Automóveis e bicicletas – parte 2

Recebi inúmeros e-mails de ciclistas indignados pela minha crônica anterior sobre a convivência pacífica entre bicicletas e automóveis nas vias de grande trânsito, como se eu fosse contra as bicicletas. Na verdade, sou contra a morte de ciclistas, coisa que vemos infelizmente com grande frequência nas grandes cidades. Reitero minha posição de que deve haver um espaço separado para as bicicletas, que evite uma colisão por imprudência de um ou outro. Não vejo como uma lei que estabeleça uma distância mínima de 1,5 m possa ser respeitada, pois inúmeras vezes um ciclista nem é visto quando está ao lado de um veiculo grande. Sabemos que nosso trânsito é caótico, que não temos um adequado sistema de transporte publico, e que nossos motoristas em geral não têm uma educação exemplar. No complicado trânsito de uma grande cidade, a bicicleta será sempre o lado mais fraco. Imaginem uma avenida marginal qualquer do Rio Pinheiros ou Tietê em São Paulo cheia de bicicletas andando com os carros. Alguém em sã consciência acredita que não vão ocorrer acidentes? Volto a dizer, imaginem uma cidade onde não existam calçadas para pedestres e que existam leis dizendo que os carros devem andar a uma distância mínima do pedestre. Dá para imaginar uma convivência pacífica e sem um grande número de atropelamentos? É muita conversa mole, meus amigos. É muita politicagem de quem quer ficar de bem com todos e diz o que as pessoas querem ouvir. Quando alguém põe o dedo na ferida, não gostam, porque dói. Mas, devemos lembrar que dói não por causa do dedo e sim porque existe uma ferida aberta.

Sou pai de ciclistas, que não se aventuram a andar em uma avenida de grande trânsito, pois reconhecem o perigo real e têm amor à vida. Quando existir uma forma segura, bem delimitada e separada, para os ciclistas, será diferente. Devemos brigar para que essas vias existam, assim como devemos exigir do poder público um sistema de transporte de massa adequado. Até lá, pegar uma bicicleta e se aventurar no meio de milhares de carros, ônibus e caminhões, será uma aventura, que muitas vezes terá um final trágico e não adianta depois do acidente consumado, falar que a culpa é deste ou daquele. Uma vida se foi e, nesta hora, discursos e atos de protesto não a trarão de volta.

 

 


19
Apr 12

Crônica 114 – Vinho nacional e importado

Vinho fino nacional e importado

Recentemente temos visto uma nova tentativa de salvaguardar a incompetência de algumas empresas nacionais, via interferência do governo. Estou falando da tentativa em sobretaxar ou colocar cotas na importação do vinho importado, tendo em vista que o vinho nacional vem perdendo espaço no mercado. O problema é que boa parte dos empresários do setor vinícola brasileiro, quando fazem um vinho de alta qualidade, colocam preços abusivos. Neste cenário, o consumidor que procura um vinho de boa qualidade e preço justo, vai para o vinho importado, seja da América do Sul ou da Europa.  De acordo com a Federação das Cooperativas do Vinho, foram comercializados no Brasil cerca de 92 milhões de litros de vinho finos, sendo 20 milhões de vinhos nacionais e 72 milhões de importados. Já o Instituto Brasileiro do Vinho divulgou que o brasileiro consumiu em 2011 perto de 78 milhões de litros de vinhos importados, sendo cerca de 27 milhões do Chile, 18 milhões da Argentina, 13 milhões da Itália e assim por diante. Seja como for, o número gira em torno de 25% do vinho fino nacional contra 75% do importado. Os números mostram claramente que algo está errado na produção brasileira de vinhos finos. Ou é o preço, ou a qualidade, ou os dois. O correto não é subir o preço dos importados nem limitar a importação, pois o problema está aqui dentro. O Brasil precisa é fazer vinhos finos de boa qualidade a preços mais baixos. O governo pode ajudar diminuindo impostos ou dando incentivos à indústria nacional, mas impedir a entrada de produto melhor e mais barato é incentivar a indústria a se acomodar e não evoluir. O governo estuda medidas para tornar o vinho importado mais caro ou retirá-lo da prateleira. Restaurantes do eixo São Paulo e Rio de Janeiro já se posicionaram contra essa medida solicitada por várias associações gaúchas, ameaçando inclusive retirar de suas cartas o vinho nacional. No meio desta confusão, palmas para a Vinícola Salton, que enviou um comunicado à imprensa afirmando que não apoia o pedido de salvaguarda dos vinhos nacionais, por entender que estas medidas podem restringir o livre arbítrio de seus consumidores. Reforça também que a empresa busca a melhoria de seus processos e produtos, para concorrer com vinhos nacionais e importados. Vinho não é commodity. Infelizmente o governo e alguns setores da indústria vinícola gaúcha não sabem disto, ou fingem não saber.

 


10
Apr 12

Crônica 113 – Automóveis e bicicletas

Automóveis e bicicletas

Imaginem um espaço onde todos os carros e pedestres andem juntos. O que vai acontecer? Muitos pedestres serão atropelados. Por este motivo, alguém no passado teve a brilhante ideia de separar os carros dos pedestres e criaram as calçadas. Se não existissem calçadas, dá para imaginar o caos no trânsito, com os carros e os pedestres misturados e correndo um para cada lado? Dá para imaginar a quantidade de atropelamentos? Resumindo a história, cada qual tem que ter o seu espaço, pois é impossível uma convivência sem que um atrapalhe o outro e causem acidentes. Da mesma forma, vemos na mídia uma forte corrente forçando para que os ciclistas andem lado a lado com carros, nas grandes cidades. Este é um tremendo erro e quem levanta esta bandeira está no mínimo equivocado. Não dá certo colocar bicicletas e carros no mesmo espaço, da mesma forma que não dá certo colocar carros e pedestres juntos, sem calçadas. Não adianta criar regras ridículas de espaço mínimo entre um e outro, pois além de não serem viáveis, não serão respeitadas nem por um nem por outro. A questão é simples: proibir bicicletas nas grandes vias das grandes cidades. O trânsito já é caótico e, se formos criar regras para tentar conviver com as bicicletas, irá piorar. Vamos deixar esta baboseira de veículo não poluidor, pois uma bicicleta não é um veículo de transporte nas grandes cidades, sendo mais um veículo de lazer. Pode ser nas zonas rurais, nas pequenas vilas, nas vias de baixo trânsito, mas nunca numa via expressa ou de alto trânsito, como uma Avenida Paulista em São Paulo ou Avenida Brasil no Rio de Janeiro. Não temos espaços nestas avenidas para construir vias exclusivas para bicicletas e criar regras de distâncias mínimas entre carros e bicicletas não vão resolver o problema. Pelo contrário, vão servir somente para morrer mais ciclistas e aumentar a arrecadação com multas. Da mesma forma que as calçadas foram criadas para o pedestre ir e vir com segurança, isolado dos carros, a única forma é criar um espaço para os ciclistas isolados dos carros. Nos locais aonde isto for possível, que se criem tais espaços e, onde não for possível, que não possam circular as bicicletas. Na verdade, o que realmente precisamos é de um melhor sistema de transporte coletivo, para diminuir os carros nas ruas. Até lá, tudo que se diga é baboseira, ou como dizia meu avô: é uma parolagem amena para acalentar bovinos, que no bom português quer dizer conversa mole para boi dormir.

 


03
Apr 12

Crônica 112 – Dia da mentira

Dia da mentira

Em vários países no mundo o dia primeiro de abril é comemorado como sendo o Dia da Mentira ou Dia dos Tolos. Existem várias explicações para a definição desta data, mas a mais aceita diz que teve início em 1564 na França. Na época, o Ano Novo era comemorado em 25 de março, data que marcava o início da Primavera, e as festas duravam até o dia primeiro de abril. O rei Carlos IX, após a adoção do calendário gregoriano, determinou que o Ano Novo fosse comemorado em primeiro de janeiro, mas muitos franceses continuaram a seguir o calendário antigo. Os demais franceses passaram a chamá-los de tolos e fazer todo tipo de brincadeiras. Na França atual é conhecido como “Poisson dávril” que significa “Peixe de abril”. Nos países de língua inglesa, este dia é conhecido como “April Fool’s Day” ou Dia dos tolos de abril. Aqui no Brasil a brincadeira parece ter começado em Minas Gerais, quando o jornal A Mentira, publicou em 01 de abril de 1828, a morte de D. Pedro, que foi desmentida no dia seguinte. Ao longo dos anos tivemos algumas mentiras que ficaram famosas, das quais destacamos duas.

Em 1957, a televisão inglesa BBC noticiou que devido à eliminação da praga do espaguete, os fazendeiros suíços estavam prevendo uma safra recorde de massa. Um pequeno vídeo mostrava os criadores de espaguete colhendo montes de massa das árvores. Dizem que centenas de pessoas ligaram para a emissora querendo informações de como cultivar os espaguetes. Mais recentemente, em 1976, um astrônomo britânico chamado Patrick Moore, anunciou que no dia primeiro de abril, em um determinado horário, Plutão passaria por trás de Júpiter, reduzindo a gravidade na Terra. Ele disse que se as pessoas pulassem naquela hora certa, experimentariam a sensação de gravidade zero e flutuariam por alguns instantes. Interessante que centenas de ouvintes ligaram para a rádio confirmando o sucesso da experiência. No dia 01 de abril de 1964, tivemos o Golpe Militar, com a promessa de livrar o país das greves, corrupção e roubalheiras que assolavam o país. O regime caiu, o país mudou muito em relação a 1964, mas a eliminação da corrupção e da bandalheira, talvez faça parte da mentirinha da data, que se perpetua ano após ano.

 

 


03
Apr 12

Crônica 111 – A onda de ódio no futebol

A onda de ódio no futebol

Infelizmente vemos com freqüência cenas de extrema violência por parte de indivíduos que se intitulam torcedores de um ou outro time de futebol, em especial durante jogos considerados clássicos nas grandes cidades. Esta semana, durante um jogo entre Palmeiras e Corinthians, na cidade de São Paulo, assistimos a mais um deplorável espetáculo que teve como desfecho duas mortes e diversas pessoas em estado grave. As imagens na TV mostraram centenas de pessoas armadas com pedaços de pau, canos e armas de fogo, se batendo contra outras, pelo único motivo de serem torcedores de times rivais. A polícia, impotente e sem a menor chance de conter a onda de ódio, que se espalhou pelas ruas, tentava controlar sem sucesso aquela horda de bárbaros. Após a carnificina, aqueles loucos simplesmente entraram no estádio do Pacaembu e foram assistir ao jogo como se nada tivesse acontecido. Como explicar o ocorrido? Como justificar tamanha violência, ligada a um espetáculo de futebol, criado para o lazer e diversão? A única explicação é que o Homem se transformou numa bomba, armada e sempre prestes a explodir. Quando está só, este instinto assassino é bloqueado mais facilmente e o indivíduo suporta sem explodir e mostrar sua verdadeira face; quando se reúne em um grupo maior, como é o caso das torcidas, em especial as uniformizadas, existe o incentivo coletivo e sua parte sombria e assassina vem à tona. É como um lobo da mesma matilha, que quando um deles uiva dando o comando para atacar, todos os outros vão sem pensar. Nesta hora, o aparentemente pacato cidadão se transforma na besta raivosa, como no conto do médico e o monstro. Toda a sua frustração como ser humano, toda sua raiva contra tudo aquilo que o incomoda diariamente, subitamente vem à tona e ele se torna uma verdadeira fera. Parte da humanidade está dando mostras diárias de uma queda brutal e, no fundo, estamos nos acostumando a ela. Esta é a verdade. Antigamente, quando acontecia um acidente com vítima no trânsito, era uma comoção geral; agora, quem está ao lado pragueja devido ao congestionamento, sem se importar com a vítima. Antigamente as pessoas iam a um estádio de futebol para passar o tempo, torcer pelo seu time e apreciar um esporte. Agora, muitos vão para brigar e extravasar suas frustrações em cima de outro ser humano. No caminho do estádio, matam e desviam dos mortos, sem dar nenhuma importância à vida.

 


22
Mar 12

Crônica 110 – Os perigos de uma única história

Os perigos de uma única história

Recentemente, assisti pela internet, o depoimento da escritora nigeriana Chimamanda Adichie, patrocinada pela fundação TED (Tecnologia, Entretenimento e Design), que promove palestras pelo mundo, sobre ideias que merecem ser disseminadas. Entre seus palestrantes, aparecem nomes de peso tais como Bill Clinton, Al Gore, Bill Gates e seus temas abrangem aspectos da ciência e cultura. Nesta palestra, Adichie mostra de uma forma clara os perigos de conhecermos somente uma história e, através dela, sermos impressionados e formarmos determinados conceitos e preconceitos. Ela fala sobre os perigos de uma única história. Em certo momento, contou ser de uma família de classe média na Nigéria e que seus pais tinham um empregado vindo de uma aldeia muito pobre. Ela cresceu ouvindo de sua mãe que a família deste empregado era paupérrima e todos viviam de uma forma miserável. Esta era a única história e, assim foi criada a imagem na sua cabeça. Pessoas pobres, sem nada na vida, que viviam em função de um prato de comida. Mais tarde, quando visitou a aldeia, viu que lá existiam pessoas com grande habilidade manual e faziam um artesanato lindo. Esta era outra história, que ela não sabia existir, sobre os habitantes da aldeia. Além de pobres, eles tinham aptidões e faziam coisas lindas! Eu me lembrei de uma vez em que estive nos Estados Unidos a serviço e um americano me levou até sua casa no final da tarde. Enquanto eu esperava ele tomar um banho, sua mãe, uma senhora de seus setenta anos, me levou até a cozinha, onde me apresentou a sua geladeira e lava-louças, coisas que ela não sabia existir no Brasil dos anos oitenta. A princípio, achei que ela era meio louca, mas depois, vi que ela era desinformada sobre tudo que estava fora de seu ambiente. Hoje a vejo como uma vitima de quem passou uma vida com somente uma história. Ela não sabia outra história sobre o Brasil, quer seja por ignorância ou por outro motivo. Após conversarmos por meia hora, sua expressão era de assombro, bem diferente da inicial. Ela estava ouvindo outra história, bem diferente da única que tinha escutado durante toda sua vida. Durante a palestra de Adichie, eu me vi novamente dentro de uma cozinha, numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos, com uma senhora de uma única história. Os perigos de se ouvir uma única história sobre uma pessoa, um grupo social, uma cidade, um país ou uma cultura, é o de gerar preconceitos e um sem número de mal entendidos. Nossas vidas são compostas de muitas histórias e, para entendermos um ser humano, temos que conhecer várias de suas histórias.


14
Mar 12

Crônica 109 – Igualdade e competência

 Igualdade e competência

No início de março, o Senado aprovou um projeto de lei que obriga as empresas a pagarem os mesmos salários para homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo, e o enviou para sanção da presidenta Dilma. Acho justo que assim seja, não só para homens e mulheres, mas para brancos, negros e quaisquer outros que façam exatamente a mesma coisa. O problema é saber quem é igual, visto que não existem dois seres iguais em eficiência, comprometimento e resultados. Podemos ter a mesma nomenclatura e descrição do cargo, mas sempre teremos um funcionário mais dedicado ou comprometido que outro, independente de sexo, cor, credo ou preferências sexuais. Como premiar a competência, se tudo ficar nivelado por lei? Na verdade, esta lei pode premiar a incompetência e desestimular aquele que busca sair da mediocridade. Mesmo que o cargo seja o mesmo, não existem ocupantes que desempenhem a função da mesma forma. É aí que a lei entra, premiando aquele que não faz por merecer. Torno a dizer, que não se trata de homens ou mulheres e sim de competência. Temos que ter uma fórmula clara de premiar a competência, pois desta forma vamos incentivá-la. Hoje vemos o contrário. Para que vou me esmerar em fazer um bom serviço, se outro ao meu lado não dá a mínima e ganha igual só porque tem o mesmo cargo? Isto é um agente desmotivador. Se usarmos o apelo da igualdade, por que os homens precisam ter 65 anos de idade e 35 anos de contribuição e as mulheres 60 anos e 30 de contribuição, para terem o mesmo benefício da aposentadoria? Ora, se vamos passar a régua da igualdade no país, que seja para tudo. Na verdade, esta nova lei cria dificuldades, mais burocracia e possibilidades de multas para deleite dos sempre presentes fiscais, burocratas e advogados de porta de fábricas. Os cargos podem estar descritos e formalizados, mas o desempenho, este é totalmente diferente. Defendo sim, uma diferenciação por mérito e não uma equiparação por lei. Um sistema leva o funcionário a crescer e o outro o desestimula. Este projeto é mais um marketing político do que uma solução para diminuir as desigualdades. Vamos premiar a competência, quer seja de um homem, mulher, branco, negro, velho ou moço. Milton Friedman, economista americano e prêmio Nobel em 1976, disse uma vez que a sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem igualdade e sem liberdade. Isto é o que queremos?


06
Mar 12

Crônica 108 – Uma entidade chamada Sistema

Uma entidade chamada Sistema

Quantos de nós não passamos por uma situação onde as coisas param de funcionar e o atendente nos diz que a culpa é do Sistema? É normal após muito tempo nas filas de um banco, o caixa nos informar que o Sistema caiu e as operações ficam suspensas até a sua volta. Da mesma forma, em muitas empresas, as notas fiscais não podem ser emitidas, nem os pagamentos efetuados, quando o famoso Sistema está fora. Isto acontece em todas as operações em que a tecnologia nos obriga a depender de um bendito Sistema implantado para facilitar a nossa vida. Recentemente vimos o caos nos aeroportos causado nos embarques da TAM, pois o Sistema estava inoperante e a operação tinha que ser feita manualmente, como nos velhos tempos. Dá para imaginar algo semelhante nos Sistemas de defesa e controle de armas nucleares de qualquer país? Por outro lado, já ficou convencionado que, quando ocorre uma pane deste tipo, não existe um simples mortal responsável. É tudo culpa do Sistema, que passou a ser uma entidade superior. Numa empresa, ele manda mais que diretores ou o próprio presidente, pois não adianta eles ordenarem que o Sistema volte a trabalhar. Ele retorna quando quer, falta ou sai de férias quando quer e ninguém tem autoridade para contestá-lo. Muitas vezes penso nos benefícios, malefícios e na própria criação deste intocável Sistema. Ele é uma identidade criada artificialmente, através de um processo mágico, para nos servir. Ele lembra a fábula do Golem que, no folclore e na cabala judaica, é um ser artificial e sem vontade própria, criado para satisfazer as vontades de quem o criou. Embora sem inteligência, ele podia fazer tarefas repetidamente e boas. O problema era que, repentinamente, ele ficava sem controle, se tornava muito perigoso, e, fazê-lo parar, era uma árdua tarefa, mesmo para os melhores rabinos e cabalistas. Na tradição esotérica, ele tinha a palavra Emeth, que significa verdade em hebraico, na sua fronte ou debaixo de sua língua e, para desativá-lo, seu criador precisava apagar a primeira letra e transformar a palavra em Meth, que significa morte. Isto lembra uma senha para acessar um programa ou um Sistema e ativá-lo ou desativá-lo. O problema é que nós nos acostumamos tanto com suas tarefas, que hoje é difícil viver sem nosso Golem Sistema e, quando ele falha, a nossa vida fica complicada. Resta saber se, como na fábula, acontecer dele ficar fora de controle, quem conseguirá acessá-lo para apagar a primeira letra. Nas histórias do Golem, quando isto aconteceu, o preço para desativá-lo custou muitas vidas, inclusive a de seus criadores.